Exposição de Fotografia - Lugares Ocultos

Após a realização de duas séries fotográficas, inseridas no contexto da arqueologia industrial, surgiu a oportunidade de expor esse trabalho com carácter de memória visual de tempos idos associados ao ritual de laboração. Na sequência de já ter exposto na ?Sala do Recibo? do Mosteiro de S. Martinho de Tibães no ano de 2003, surgiu a ideia de conciliar este trabalho fotográfico com Jorge Inácio, o qual tem vindo a fazer um levantamento de registos fotográficos do Mosteiro, entrado em locais e pormenores muitas vezes imperceptíveis e ?ocultos? desse magnífico espaço monástico. Esta associação de fotografias com aspectos distintos entre fábricas e mosteiro acabou por dar origem a um projecto artístico de grande envergadura por possibilitar um ponto de vista único e revelador dos aspectos comuns entre ?fábrica? e ?mosteiro?. A ideia surgiu então, de estabelecer uma relação directa entre o objecto do projecto fotográfico e o espaço monástico. É de extrema importância, realçar nesta exposição as características comuns entre a ?fábrica? e o espaço da exposição, o ?mosteiro?. À partida, parece não haver senso neste conceito arrojado, mas se pensarmos nas fábricas como espaços vastos, com áreas perfeitamente divididas onde o trabalho era executado para determinados fins, e sobretudo com um ritual muito preciso, marcando uma rotina diária. Tal como as fábricas, os mosteiros são locais de rotina, de trabalho espiritual e são também compostos por áreas perfeitamente definidas onde essa rotina diária era executada segundo regras extremamente precisas. Ambos os universos (fábrica e mosteiro) são grandes, operam dezenas ou centenas de funcionários/monges para que tudo se mantenha imutável. Neste caso, as fábricas fotografadas estão em ruínas, e mais uma vez se relacionam bem com a ideia gerada socialmente que os mosteiros são construções antigas, místicas e quase sempre em ruínas ou em avançado estado de degradação. Não é por ventura o caso do Mosteiro de Tibães, mas basta a ideia romântica de mosteiro, e todo o aparato inerente a este universo para criar o fio condutor para que o conceito do meu trabalho em parceria com as fotos de Jorge Inácio seja entendido. Trata-se pois, de um objectivo conceptual da visualização e do entendimento de pontos que ligam estes dois mundos tão diferentes, mas em simultâneo tão perto e tão idênticos na sua estrutura mais íntima.
O título da exposição é ?Lugares Ocultos?, reforçando a ideia de retiro. Quer nos mosteiros, quer nas fábricas há um grande distanciamento entre o interior sagrado e quase inacessível, do mundo exterior. Há quase como uma barreira invisível que separa o mundo profano exterior do mundo sagrado, do culto e do trabalho. Os ?Lugares Ocultos?, são eles mesmo, muitas vezes o alvo das nossas objectivas, mostrando e descobrindo sítios, vistas, visões e planos desconhecidos da rotina do dia a dia. O oculto na sua dimensão mais transversal, é aqui posta a nu, evidenciando pormenores e dimensões comuns destes dois ambientes únicos. Neste projecto fotográfico não há presença humana, simplesmente foram captados os diferentes espaços e pormenores que interessaram destacar para realçar o espaço e remeter para a nostalgia do tempo em que tudo estava em actividade. Pretendeu-se captar as texturas e os espaços degradados pelo tempo, numa tentativa de conseguir sentir os cheiros e os ruídos causados por tantos anos de laboração. Da mesma forma, as paredes dos mosteiros encerram em si tantos pormenores de ruína, de texturas e de espaços abandonados que nos fazem lembrar os tempos áureos da vida monástica, do tratamento do culto e das rotinas pesadas, quase como se de funcionários se tratasse para manter uma ordem global num só espaço muito vasto. Tive ainda a iniciativa de produzir um vídeo onde destaco muitos desses espaços das fábricas fotografadas e do Mosteiro de Tibães, numa abordagem esteticamente interessante para o espectador. Este é o único registo a cores destes dois mundos apagados pelo tempo mas imortais na nossa memória.
César Figueiredo.
LUGARES OCULTOS
César Figueiredo e Jorge Inácio, quatro olhos que vaguearam por lugares carregados de memória e, conferindo-lhes significado e valor, proporcionam-nos um outro Olhar e um Sentimento de leda melancolia.
Numa harmonia perfeita com o espírito dos lugares, os autores, nostálgicos de um tempo perdido que gera saudade, pensaram em homens, retomaram gestos, recriaram rotinas. Sentiram e viveram a ruína e por meio dela preservaram a memória de espaços que rotulam de sagrados.
Capturando a Natureza Visível e Invisível destes universos, corpos esvaziados da sua alma, construíram, numa cosmovisão quase religiosa, um lugar para a eternidade que resiste ao ímpeto devastador dos tempo e das vontades.
Aida Mata 2009
AS IMAGENS
As imagens passam à nossa frente, fazendo com que as coisas tenham um sentido e uma cor diferente de cada vez, que tenham uma transcendência pequena ou grande mas que formem um conjunto ao qual chamamos - a nossa vida.
Sensações que muitas vezes ficam presas na memória, de uma forma mais ou menos inconsciente e que adquirem logo novas formas, que jogam entre si, se misturam e se convertem em coisas diferentes ? as nossas recordações.
Este trabalho fotográfico propõe penetrar nesse lugar. Há fragmentos de coisas vividas, de coisas vistas e sentidas de uns anos que de repente se unem, se separam, se relacionam num espaço novo e fazem aparecer outra história, outro universo. Entre elas existem ligações mais ou menos evidentes, relações que estão aí ou que podem imaginar-se. O importante é que, o que se começou a construir aqui seja completado e convertido em outra coisa dentro do mundo pessoal de quem se aproxime e que cada um seja tocado pelo lugar ao mesmo tempo familiar e desconhecido, aquele espaço onde os pensamentos são abstractos, as recordações se misturam e os limites se perdem.
Jorge Inácio 2009
Mosteiro de Tibães
Serviço Extensão Cultural
+351253622670
www.mosteirodetibaes.blogspot.com
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