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11 Dez. 2018 Carocho gigante em construção Os alunos da Universidade Sénior do Município de Miranda do Douro estão, por estes dias, empenhados na construção de um carocho gigante. Os trabalhos decorrem no Museu da Terra de Miranda. Evento
O Carocho e a Velha

"No dia 27 de Dezembro de cada ano, dia de S. João Evangelista na Liturgia Romana, em Constantim, povoação do Concelho de Miranda do Douro, aparece o conjunto do Carocho e da Velha. 

O Carocho veste um fato de pano grosseiro e largo. Apresenta a cabeça coberta com uma máscara de couro que lhe cobre também a fronte até ao pescoço. No pescoço tem um rosário de carretas de linhas, já vazias. Nas mãos suporta um garfo de madeira de grande tamanho com que recolhe as peças de fumeiro; chouriças, salpicões, costelas, orelhas e pés de porco. 

Do queixo da máscara pende uma barbicha de bode como no chocalheiro de Bemposta. Sobre o trajo grosseiro, o Carocho ostenta uma bofanda de lã. Calça galochas ou polainas com botas de bezerro ou socos. 

A Velha ou "Tiê Biêlha” veste saia, blusa de chita estampada, lenço chinês na cabeça, xaile a tiracolo, um rosário de castanhas assadas ao pescoço e um saco ou surrão no ombro esquerdo. Na mão direita traz uma estaca com que recolhe a esmola de chouriça e outras peças que lhe vão dando pelas casas. 

Logo de manhãzinha cedo, depois de desenjuar, acompanhados por um grupo de tocadores de flauta pastoril ou gaita de foles, caixa e bombo e por um grupo de pauliteiros da povoação, o carocho e a Velha percorrem as ruas da povoação recolhendo a esmola para a festa de S. João. Recolhem chouriças, salpicões, dinheiro e cereal. 

Com esta esmola pagam a festa. As peças de fumeiro, pés, orelhas e costelas de porco, são para fazer a ceia comunitária que se realiza nos dias antes do Ano Novo, a 29 ou 30 de Dezembro. Na Ceia comunitária participam todas as pessoas da povoação e outras pessoas convidadas pelos mordomos da festa. 

Os pauliteiros dançam um laço à porta de cada vizinho e o Carocho e a Velha acompanham, dançando, o ritmo dos instrumentos musicais dando saltos, fazendo trejeitos e dizendo graçolas.

À porta dos vizinhos a quem faleceu algum familiar nesse ano, a dança pára e reza-se pelas almas das obrigações daquela família. 

Esta festa do carocho e da Velha de Constantim conserva-se ainda com muita originalidade do seu ritual. Tem origem em rituais dionisíacos e nela aparecem sinais de comunitarismo antigo". 

Fonte: Mourinho, António Rodrigues (1993), Figuras Rituais do solstício de Inverno na Terra de Miranda, Museu da Terra de Miranda. Miranda do Douro: Museu da Terra de Miranda, 14-16.